Perguntas sobre Igrejas



Qual é o critério de certas igrejas têm duas torres e outras têm uma, é um critério econômico?

Cid Teixeira 
Nada, é que acabou o dinheiro, simplesmente.

Tinha que pagar alguma coisa?

Cid Teixeira

Não, nada de pagar alguma coisa. Acabou o dinheiro pra fazer. O caso de Santo Antônio está documentado. O caso da Santíssima Trindade, eu vi a hora que caiu a segunda torre, ela tinha duas, eu vi, eu estava lá e olhei e vi a hora em que um raio caiu, vi o raio cair na torre e derrubar a torre, eu e as pessoas que estavam ali passando a chuva.

Eu queria saber alguma coisa a respeito da igreja da Ajuda antiga, que foi demolida, a de São Pedro também que foi demolida e se o senhor tem alguma referência sobre a igreja de Nossa Senhora de Roma, que também foi demolida?

Cid Teixeira
A igreja de Nossa Senhora de Roma não existiu, existiu a capela de Nossa Senhora de Roma, já estava arruinada em 1897, ’98, por aí, quando foi demolida para se fazer ali uma usina, uma termoelétrica. Foi essa a capela de Nossa Senhora de Roma.

Não existe nenhuma referência gráfica?

Cid Teixeira
Não, não existe, que eu conheça, não existe, de Nossa Senhora de Roma, não.
Da igreja de São Pedro existe. A igreja de São Pedro estava onde hoje está o relógio de São Pedro. Para que você tenha uma idéia, entre a lateral da igreja de São Pedro e as casas que hoje, que é onde funcionou a Escola Politécnica, era um beco estreitíssimo. Essa igreja de São Pedro foi demolida em 1912, quando da abertura da Avenida Sete por José Joaquim Seabra. Queria-se demolir também o mosteiro de São Bento. Mas esse, houve um movimento popular; então, se fez um novo traçado, os projetistas repensaram a Avenida Sete, chegaram à ladeira de São Bento um pouco mais pra direita e não se mexeu no mosteiro de São Bento. Mas para isso, sacrificou-se a igreja de São Pedro, que perdeu a sua primeira versão, ganhando aquela na Piedade, construída pelo governo do estado como indenização pela demolição da igreja de São Pedro ali onde ela estava.

E a igreja da Ajuda também foi demolida?

Repare que a igreja da Ajuda que a senhora se refere que foi demolida, não é a igreja da Ajuda primitiva, não é a igreja da Ajuda da primeira. A primeira igreja da Ajuda estava naquela esquina onde hoje, parece que tem um negócio chamado "Médico dos relógios", é uma ourivesaria, um negócio de consertar relógios, tem na esquina da Ajuda com a Rua do Tira Chapéu, no fundo da prefeitura.
Fez-se a segunda igreja mais para cá, demoliu-se a igreja para fazer a recuperação de todo o centro. Jose Joaquim Seabra, que era o governador do estado, determinou a construção daquela segunda igreja como indenização pela demolição da primeira.

Quando o senhor se referiu a essas construções, o senhor falou na igreja da Penha, o senhor falou uma data aí que eu não memorizei muito bem e aí, o senhor falou que foi construída a primeira torre do Bonfim, mas o Bonfim não foi construído depois da igreja da Penha?

Cid Teixeira
Construiu-se a Penha antes. Não, não aquela que está ali, aquela é depois. Aquela igreja da Penha. Aliás, perdoe-me, Dom José Botelho de Matos, é antes. Eu peço perdão.
A igreja da Penha é antes do Bonfim, o que é depois é o acréscimo, aquela casa dos bispos, o palácio de verão.

Desculpe se não está no contexto, mas qual a importância do padre Antônio Vieira no século XVII, na construção dessas igrejas? Realmente, ele teve uma participação nisso?

Cid Teixeira
Na construção das igrejas não há notícia. O padre Antônio Vieira era um homem de diplomacia, era um homem que pregou em igrejas, há um sermão dele pregado na igreja de Santo Antônio Além do Carmo que é uma beleza de sermão, o Sermão pelo Bom Sucesso das Armas, que é antológico. Mas na construção propriamente dita, isso é, no trabalho físico da igreja, aí, não há registros maiores.
Evidentemente que ao lado das igrejas podem ser citados outros imóveis de caráter religioso. A Quinta dos Padres, por exemplo, onde ele esteve, mas não construiu, ele esteve, morou na Quinta dos Padres inclusive, lá ele escreveu, botou ordem nos sermões dele todos. Essa quinta está lá hoje, é o Arquivo Público do Estado.

O senhor se referiu à igreja de São Miguel e à igreja dos Perdões. Onde é que estão localizadas?

Cid Teixeira
No São Miguel e nos Perdões.

São Miguel, aonde?

Cid Teixeira
Entre a Baixa dos Sapateiros e o Pelourinho.

A respeito da igreja de Santo Antônio da Barra e aquela igreja que tinha ali, na Praça da Sé, que foi demolida e que hoje tem a Cruz Caída.

Cid Teixeira
Sim, eu falei das existentes. Escapou-me e eu peço perdão, a igreja de Santo Antônio da Barra.
Santo Antônio era o padroeiro dos negreiros, a igreja foi feita por senhores do tráfico de escravos para louvor a Santo Antônio de Argüim e por isso ela ficou meio – digamos – ficou menos visível, mal vista. Aliás, é muito bem vista do mar, não foi por acaso que ela foi construída naquele local. Mas, por isso não ficou muito registrada.
Agora, a igreja dos Perdões, aliás, o convento dos Perdões com a igreja dos Perdões está lá, na Rua dos Perdões. Entre a Água Brusca e o largo da Quitandinha do Capim. Não vai dizer que não sabe onde é a Quitandinha do Capim. A respeito da igreja da Sé que foi demolida e que hoje tem aquele monumento ali da Cruz Caída.

Como foram os protestos da demolição da Sé?

Cid Teixeira
É bom que se diga a verdade, as negociações foram travadas ainda no tempo em que era arcebispo Dom Jerônimo Tomé da Silva, com a morte de Dom Jerônimo, assumiu o arcebispado Dom Augusto Álvaro da Silva que não se rendeu – vamos dizer assim – às manifestações, o que havia, a Faculdade de medicina, a Faculdade de direito, o Instituto Histórico, em resumo, as entidades mais significativas, mais culturais da cidade, protestaram, fizeram abaixo-assinados e manifestos, etc.; não obstante, foi demolida a igreja da Sé.

Quando foi demolida a Igreja da Sé?

Cid Teixeira
A igreja da Sé foi demolida em 1933. Eu tenho algumas fotografias da demolição, pedaços em pé, pedaços caídos, etc..

E a igreja dos Mares?

Cid Teixeira
Essa é novíssima, essa é de concreto armado. Essa é recente.
A igreja dos Mares é uma igreja recente, é uma igreja feita de concreto armado. Agora, há na igreja dos Mares um exemplo que eu gostaria que o pessoal que trabalha no metrô tomasse do padre Francisco Aires; o Sr.Francisco Aires de Almeida Freitas foi o padre que fez a igreja.
Ele jurou aos santos dele que a igreja não pararia dia nenhum, quando tinha dinheiro fazia uma parede, fazia umas coisa e tal; quando não tinha dinheiro, ele colocava um tijolo, amanhã outro tijolo, depois outro tijolo na parede, fazia um pouquinho de argamassa e botava um tijolo. A igreja não parou de ser construída um só dia. Claro que simbolicamente. Não foi porque ele botou aquele tijolo que a igreja se fez.
Mas ele fez essa promessa a si próprio de não deixar a igreja parar até a construção. Mas ela é de concreto armado, ela não é uma igreja colonial, de jeito nenhum. Essa igreja, pelo meu conhecimento, o projeto dela foi do professor Oscar Caetano. Exatamente. Meu querido amigo Oscar Caetano da Silva, que é também autor de outras coisas, é autor de um projeto do prédio do Arquivo Público aí, na Rua Carlos Gomes, tem é coisa, da estação da estrada de ferro de Nazaré; uma série de coisas de Oscar Caetano, grande engenheiro e pintor, eu tenho um quadrinho dele.

Voltando ao assunto da igreja da Sé, tem um artigo que Jorge Amado publicou no livro dele "Bahia de Todos os Santos", que ele estava relatando o seguinte: que quanto à derrubada da igreja da Sé, ela foi patrocinada pela antiga companhia de bondes.

Cid Teixeira

Companhia Linha Circular. E inclusive, ele citou que uma grande manifestação da população foi devido a isso porque quem estava patrocinando foi a Companhia Linha Circular.

Cid Teixeira
A Companhia Linha Circular tinha interesse em modificar o trânsito de seus bondes ali, no centro, porque com a igreja da Sé no meio.
Você tem idéia de onde estava a igreja da Sé, a fachada voltada para o mar, onde está a Cruz Caída, o corpo da igreja atravessando tudo aquilo e os quarteirões todos, porque não foi só a igreja que foi derrubada, foi a igreja e todos os quarteirões ao redor. Então, a Companhia Linha Circular, que fez a sua sede ali, onde está hoje a Coelba, aquele prédio foi feito pela Circular para ser sua sede, tinha todo o empenho em derrubar e patrocinou inclusive financeiramente, é verdade.
Dizem que a Sé na Misericórdia não cabe é certo, é justo; mas cabe não há discórdia no bolso de Dom Augusto.
Diziam-se uns versinhos assim na época.

Companhia Linha Circular é verdade.


A igreja da Sé, ela foi demolida em 1933. Quando ela foi demolida, grandes protestos, grandes manifestações, mas não adiantou nada, não; botaram a igreja no chão. E, por iniciativa do padre Manoel Barbosa, colocou-se um busto do primeiro bispo Dom Pero Fernandes Sardinha no sitio onde estava o altar-mor da igreja da Sé. Não havia gratuidade na colocação daquele busto ali, não; o sitio estava no local onde a igreja da Sé tinha o seu altar-mor.
Quando fizeram essas modificações, agora, que botaram a fonte luminosa ali, botaram Tomé de Souza com ar de treinador de time de vôlei, puseram o bispo aleatoriamente, acharam que aqui está melhor e botaram o bispo. Não perdeu o simbolismo e encomendou-se a Mario Cravo uma cruz fraturada como símbolo do arrependimento tardio por ter-se demolido a igreja da Sé.
Quando se demoliu a igreja da Sé, a pedra lavrada, a cantaria talhada, toda ela, toda ela – estou ficando velho, está na hora de eu dizer isso – toda ela foi colocada num terreno de propriedade da Cúria Metropolitana, que se chamava Quinta das Beatas. Pedras de cantaria lavrada, florões de pedra, etc., foi tudo colocado ali.
Um dia fizeram uma invasão na Quinta das Beatas, que era um terreno baldio e de marreta quebraram-se as cantarias todas para fazer fundação das casas da invasão, que é hoje o consolidado bairro de Cosme de Farias. Se alguém cavar uma casa em Cosme de Farias, está arriscado a encontrar uma portada de igreja, uma coisa dessas de cantaria talhada aí, na Quinta das Beatas.

Professor Cid, fora Salvador, tem alguma igreja, no interior do estado, onde tem uma relevância histórica importante, do século XVII, XVIII, XIX?

Cid Teixeira
Não, do século XVII, XVIII, XIX. Você tem do século XVIII, você tem a igreja de Nossa Senhora do Rosário de Cachoeira, a igreja da Purificação de Santo Amaro, a igreja de São Gonçalo de São Francisco do Conde, aí, você tem várias do século XVIII, de maior ou de menor importância, mas são várias.
Santo Antônio dos Valasques que é lá, na ilha de Itaparica, que eu, quando ganhar sozinho na Super Sena vou morar naquela igreja. Têm várias.

Professor, voltando à igreja da Sé, em que ano ela foi construída e qual o seu estilo?

Cid Teixeira
A igreja da Sé, vamos devagar, primeiro era uma Sé de palha, uma Sé primitiva, depois, no século XVIII, aliás, final do século XVII, começo do século XVIII, começou a ser construída aquela igreja que foi derrubada ali. Demorou muito, ao ponto de já se terminar na vigência do neoclássico. É uma igreja que começa no barroco e termina no neoclássico.

 Por que é que normalmente se diz que a Bahia tem trezentas e sessenta e cinco igrejas?

Cid Teixeira
Não, não tem trezentas e sessenta e cinco.

Sobre as torres nas igrejas?

Mas, não somente ela não tem uma torre; a igreja de Santo Antônio Além do Carmo não tem uma torre, a igreja da Santíssima Trindade não tem uma torre, a igreja dos Quinze Mistérios não tem duas torres, nenhuma das duas torres foi feita.

Mas existe alguma relação desse fato com o que uma vez me disseram, que as pessoas ficavam aguardando ajuda?

Cid Teixeira
Não, não tem isso, não. O dinheiro acabou, simplesmente, o dinheiro acabou.
A igreja dos Quinze Mistérios não tem nenhuma das duas torres, só tem o corpo central da igreja, ali, no largo dos Quinze Mistérios, que eu não sei se você sabe onde é. Sobe a ladeira do Aquidabã, aliás, Aquidabã hoje não sobe, somente desce. Já sabe onde é. Então?
Quem for do Barbalho pra descer a ladeira do Aquidabã passa por ela.

Professor, por que é que a igreja dos Aflitos tem o nome de Aflitos?
Tem alguma coisa a ver com o pessoal que ia ser enforcado
.

Cid Teixeira
Nada de enforcamento, não passava ali. O Senhor dos Aflitos é uma devoção portuguesa do século XIII, XIV, por aí assim e veio pra cá. Não tem nada a ver com ser enforcado. Enforcou-se gente foi na Piedade. Não tem nada a ver com isso.
Sendo assim, quem ficasse de boa saúde, a igreja da Saúde foi feita por isso, não tem nada a ver.Professor, ali, naquele trecho de Água de Meninos, além da igreja da Santíssima Trindade.

São Francisco de Paula, A Santíssima Trindade, o Pilar e a dos Órfãos de São Joaquim, existiu alguma outra igreja ali?

Cid Teixeira
Existiu, sim senhora. A capela do Rosário. Quer uma fotografia, eu tenho.

No livro de Marisa Viana tem essa fotografia, nunca ouvi falar nessa igreja. 

Cid Teixeira
Cedida pelo humilde orador que vos fala aqui.
A capela do Rosário. Você viu uma fotografia da igreja do Rosário de costas.

Quando foi demolida a Capela do Rosário?

Cid Teixeira
Foi demolida quando se fez o alargamento da Avenida Jequitaia.

Igreja de São Francisco de Paula?

Cid Teixeira
São Francisco de Paula, hoje está arruinada, não se celebra mais missa. Tem umas paredes lá. Na ladeira de São Francisco de Paula. Sabe onde é a ladeira?

Outro ponto, aproveitando aqui, que o senhor falou de Dom Augusto, dos Perdões, o senhor podia relatar um fato que existiu entre o então Cardeal Arcebispo e uma freira do convento dos Perdões.

Cid Teixeira
Existiu sim. Irmã Maria.
A ordem religiosa do convento dos Perdões se julgava subordinada à matriz ou à casa matriz que não era aqui, na Bahia. Dom Augusto achava que estando no arcebispado, que era da alçada dele dar pitaco lá dentro.
Houve um desentendimento que chegou às vias de fato praticamente, dizem que ele arrumou um livro – isso aí eu não vi, não estava presente na hora – mas teria havido assim, um ataque pessoal – não sei se chegou a isso, não tenho condições de afirmar – mas criou-se uma questão judiciária uma querela que foi ao Fórum, Dr. Jaime Junqueira Ayres foi o advogado da freira. Houve uma profunda dissensão entre os católicos da Bahia naquele episódio.

Professor, quais são as basílicas de Salvador e por que são consideradas basílicas?

Cid Teixeira
Basílica é uma dignidade. Qualquer igreja, qualquer capela pode ser elevada à categoria de basílica. Nós temos em Salvador três basílicas, a basílica Catedral, a basílica da Conceição da Praia e a basílica do Bonfim, são três basílicas.
Basílica é um título de dignidade que o Papa outorga a uma igreja. Como monsenhor é padre, monsenhor é uma dignidade. Na igreja existe padre, bispo e Papa, só tem essas três categorias.

E cardeal?

Cid Teixeira
Não, cardeal é uma dignidade.

O Bonfim teve a última torre construída no século XIX, as igrejas não ficavam prontas de vez, não.


Eu não falei na igreja da Piedade porque ela é um hospício novo, ela é do começo do século XX. Já existia ali uma igreja da Piedade, mas não aquela que você conhece hoje. A cúpula é do século XIX, a nave central é do século XIX, mas todo o convento é do século XX. Eu parei no século XIX.
Eu não falei, por exemplo, no Museu de Arte Sacra, na sua vigência, parei em Santa Tereza, na construção, não falei na demolição do seminário menor e na restauração para o Museu de Arte Sacra.
No caso da Piedade, a cúpula é de tijolo - ouça bem – a cúpula de São Bento é de concreto armado, é coisa recente, foi feita já por Emilio Odebrecht. Porque as igrejas são dinâmicas, elas continuam fazendo coisas. Mas a cúpula da Piedade, a cúpula merece todo o respeito. Você fez bem em lembrar.
Ela é feita com a velha tecnologia medieval.





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Salvador - 20/04/2014

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