Perguntas sobre Solares



O que significa solar?

Cid Teixeira
Solar é uma palavra portuguesa, aquela casa senhorial, aquela casa que é a casa matriz; solar é a casa grande, que nós chamamos casa grande e senzala aqui, em Portugal você diz, solar e agregados, é o equivalente. É a casa matriz, é a casa solarenga. Quem leu “A cidade e as serras” de Eça de Queiroz, quem não leu está em debito, sabe muito bem o Solar de Tormes que está lá com as suas casas ao redor.
Quando os Portugueses vieram para o Brasil, a casa grande ficou sendo a casa grande do engenho, o solar passou a ser a replica urbana da casa grande.


Quando Marback chegou na Bahia?

Cid Teixeira
Henrique Samuel Marback, ele chega na Bahia aproximadamente junto, não é no mesmo navio, mas na mesma oportunidade em que chega François Gantois e que chega um certo Payer, cujo primeiro nome não ficou; esses três começaram aqui o negócio de escravos, traficantes de escravos. Não traficante no sentido negativo, do escravo ilegal, não, do escravo permitido na época.


Foi o Marback quem construiu o Solar Marback?


Cid Teixeira
Tem a referência ao nome dele. Henrique Samuel Marback.
Ele não fez a casa, ele comprou a casa. Ele comprou a casa do Barão de Alagoinhas. Nessa mesma época o barão de Alagoinhas vendeu a fazenda Campina a Aristides Novis, o velho, o avô do que foi médico famoso. Esse Barão de Alagoinhas quebrou, vamos dizer assim, e vendeu, porque barão quebrava também. Vendeu a fazenda Campina e o Solar Marback.

Como cresceu a cidade de Salvador?

Cid Teixeira
Bom, a cidade de Salvador é uma cidade curiosa, porque ela tinha o nódulo central, mas tinha ilhas, vamos dizer, de povoamento. O Montserrat era uma delas, a capela do Montserrat aglutinou ao seu redor uma quantidade razoável de imóveis, de casas. A igreja missioneira do Rio Vermelho, agregou no arraial de Santana, que até hoje se diz Santana quando se fala no Rio Vermelho, alguma quantidade razoável de imóveis. Nossa Senhora da Escada perdeu tudo porque se transferiu para Periperi com a estrada de ferro e Nossa Senhora da Escada ficou lá, isolada.
Eu, toda vez que tenho oportunidade, peço por favor, não deixem cair a igreja de Nossa Senhora da Escada, que é uma igreja importantíssima. Foi lá que exercitou-se pela primeira vez ao sul da linha do Equador, em todo o mundo, o direito de asilo, por isso é que de vez em quando, tem algum ditador aí, pan-americano que corre e se asila na embaixada, isso se fez aqui, na cidade de Salvador pela primeira vez no mundo, abaixo da linha do Equador, na capela de Nossa Senhora da Escada, essa também perdeu a sua importância porque com a estrada de ferro, tudo se deslocou para Periperi.
Havia nódulos, entre eles, o do Monserrat, foi lá que o construtor, que eu não sei quem foi, nem há registros, fez e vendeu mais tarde a Henrique Samuel Marback.

E a Vila da Barra?


Cid Teixeira
Vila da Barra? Não há nenhuma sobrevivência arquitetônica ali, nenhuma, zero; ali não se fez uma casa coberta de telhas, ali foi tudo taipa, taipa e sapé.
Vila do Pereira. Aquilo onde está hoje aquela casa onde funciona o restaurante do Pereira, eu vi fazer, portanto, não é do século XVII coisa nenhuma.

Solar do Gravatá?

Cid Teixeira
Não senhora, o Solar do Gravatá, que a senhora está chamando de solar e eu acho muito bom que chame, eu não falei porque me pareceu menor de importância em relação aos outros,  é uma casa grande, não chega a ter a característica formal de solar. É uma casa grande e fica ali, antes de chegar na igreja de Santana, na ladeira, do lado esquerdo.

Na Casa de Angola tem azulejos?

Cid Teixeira
Tem uns azulejos de alto relevo na fachada, tem os afrescos, as pinturas no interior e tem uma linda escada, uma linda escada de acesso para o pavimento nobre que é o primeiro pavimento.

Onde ficavam os engenhos da Bahia?

Cid Teixeira
Nós tivemos na Bahia três engenhos de cana de açúcar; porque o engenho como tal, a moenda do açúcar, não vou dizer que é uma invenção brasileira, mas quando veio prá cá, ainda estava tão incipiente que teve que se importar a tecnologia da moagem européia; ou seja, no engenho, a cana era moída como se moí trigo, uma pedra em cima, uma pedra em baixo e um eixo vertical movido a tração animal. Você, indo ao Solar do Unhão, vai ver encostada lá, na parede, uma mó desse tamanho, que era a mó do engenho de Gabriel Soares.
 Existia o engenho da Federação, o engenho de Brotas, o engenho de Gabriel Soares, eram esses os três engenhos de moer cana aqui.
Quando se descobriu e se implementou na Bahia, não se descobriu na Bahia, mas quando se implementou na Bahia a roda d’água, isto é a tração movida por rio, por meio fluvial, foi que se deslocou da cidade o engenho para o Recôncavo, porque lá era fácil, qualquer riachinho dava uma roda d’água.
Então, esses engenhos logo, logo foram transformados em engenhos velhos, engenhos inoperantes. Não é que tenha havido um solar necessariamente ao lado deles.

Por quê o senhor não falou do Solar do Unhão?

Cid Teixeira
Porque eu só falei de imóveis de vida privada, o Solar do Unhão foi muito mais coisa pública do que privada.

Qual as características principais de um Solar e de uma Casa de Engenho?

Cid Teixeira
Solar é uma palavra portuguesa, aquela casa senhorial, aquela casa que é a casa matriz; solar é a casa grande, que nós chamamos casa grande e senzala aqui, em Portugal você diz, solar e agregados, é o equivalente. É a casa matriz, é a casa solarenga. Quem leu “A cidade e as serras” de Eça de Queiroz, quem não leu está em debito, sabe muito bem o Solar de Tormes que está lá com as suas casas ao redor.
Quando os Portugueses vieram para o Brasil, a casa grande ficou sendo a casa grande do engenho, o solar passou a ser a replica urbana da casa grande.

Como foi feita a cúpula de São Bento?

Cid Teixeira
Olha, essa é uma pergunta da melhor qualidade, se eu soubesse disso, eu tinha trazido uma gravura da construção da cúpula de São Bento. Como se levou o material para fazer a cúpula lá em cima.
Se fez um plano inclinado com um declive tão suave que permitia que um burro, um animal subisse até chegar lá, arriar o material e descer.

Usaram nas construções óleo de baleia?

Cid Teixeira
Companheiro, você está no Crea, não há notícia de nenhuma gota de óleo de baleia na construção de nenhum imóvel na Bahia. O uso de óleo de baleia é mentira. O que você tem é o seguinte: durante o século XVII e o século XVIII o rendimento, o rendimento tributário, o rendimento da arrecadação tributaria do negócio da baleia foi empregado, foi usado na construção de fortalezas, por isso se diz forte, porque foi feito com óleo de baleia. Mas não é óleo de baleia, misturar óleo com a argamassa, não; não é óleo de baleia.
Isso aqui deve estar cheio de engenheiros e de arquitetos, alguém conhece algum trabalho técnico aqui, que diga que a matéria graxa qualquer, de manteiga de pão até óleo de baleia, misturada com a argamassa melhora na pega?

Não usaram óleo de baleia de jeito nenhum?


Cid Teixeira
Pode ter sido usada no revestimento, no reboco, vamos dizer, não sei se foi usado ou não, não há registros, mas não foi usado óleo de baleia na argamassa. Na impermeabilização, sim, isso aí é normal; agora mesmo se fez isso com o Davi de Miguelangelo.

Quem vendia o óleo de baleia?


Cid Teixeira
Manoel Inácio da Cunha Menezes, que foi o Visconde do Rio Vermelho, nosso mui querido amigo, esse tinha o monopólio do óleo de baleia até 1850.

Como usavam o óleo de baleia?

Cid Teixeira
Além de iluminar a cidade, prá exportar. Muito óleo de baleia saiu daqui prá Paris, Londres e América do Norte.

O prédio da Praça Cairu é Solar?

Cid Teixeira
Tem fama de solar uma casa toda azulejada que existe na Praça Cairu, casa que é do fim do século XIX. Foi construída já para ser uma edificação para abrigar escritórios, não foi de finalidade residencial.

Como eram os banheiros dos Solares?

Cid Teixeira
Não haviam banheiros. A Academia de Letras da Bahia foi construída durante a Primeira Guerra, de 1914 a 1918, aquele prédio ali, em Nazaré. Quando a Academia de Letras foi tomar posse teve que fazer o banheiro, porque não tinha, não tinha; e era a casa do governador Góes Calmon, morou ali, sem banheiro.
Não tinha banheiro e muito menos o banheiro dentro de casa, o que tinha antes era o quartinho, era alguma coisa lá fora, mal ajeitada.
Não tinha banheiro e muito menos banheiro dentro de casa. A Academia de Letras teve que chamar um arquiteto, alias, chamar um arquiteto não, tem um acadêmico que é arquiteto, Paulo Armindo, que bolou os banheiros lá, fez umas coisas e os operários foram lá prá fazer os banheiros da academia, porque não tinha, não, o acadêmico tinha que se virar.

E os palácios da França?

Cid Teixeira
Não tinha banheiros, não; o Palácio de Versalhes até hoje não tem banheiros.

A origem do nome Unhão?

Cid Teixeira
Unhão é derivado de do nome de um homem, Pedro de Unhão Castelo Branco, Solar do Unhão. Que aquele dali, coitado, será talvez o que mais alterações tenha sofrido.
Você repare que ele tinha um andar a menos, o andar que está sobreposto, deixaram o beiral do lado de fora quando construíram. Tem o solar e um sobre solar

Edição: José Spinola





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Salvador - 24/04/2014

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